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Os gritos de “Gay Power” ainda ecoam de Stonewall 50 anos depois, por Daniel Barbier

Daniel Barbier
Escrito por Daniel Barbier

A noite de 28 de junho de 1969 marcou profundamente a história recente da humanidade. Os avanços e conquista sobre liberdade sexual e direitos homoafetivos de hoje estão e muito ligados aos eventos ocorridos naquela noite. Isso porque, apesar da homossexualidade acompanhar a trajetória da humanidade e o homoerotismo ser naturalmente inerente a realização pessoal de alguns indivíduos, em alguns períodos de nossa história, por causa de costumes e tradições inventadas, ela foi menos aceita e mais perseguida. Não que hoje o cenário tenha resolvido todos os problemas, mas avançamos!

Voltemos nosso olhar para o passado. Independente de qual fosse o lugar, qual fosse a época, qual fosse o costume, qual fosse a tradição, qual fosse a posição de poder, mundano ou religioso, as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram. Mesmo a Bíblia, muitas vezes utilizada erroneamente para negar a homossexualidade, narra a relação amorosa de Rute e Noemi, de Davi e Jonatas. A arte grega, rememorada com entusiasmo no período renascentista, nos legou diversas imagens de relações sexuais explícitas entre pessoas do mesmo sexo.

Se nos focarmos na tradição europeia, fundada sobre valores judaico-cristãs, encontraremos Papas e diversos homens da igreja que mantinham relações com outros homens, como Paulo II, Sisto IV, Leão X, entre outros. O papa Júlio III, por exemplo, dividia a cama com Innocenzo, um garoto de 15 anos, e João XII transformou o palácio papal em um bordel masculino. Nem a aristocracia escapou. O rei de Castela e Leão, João II, mantinha um caso com o nobre dom Álvaro de Luna, que veio a morrer decapitado a mando da rainha Isabel de Portugal, esposa do rei. A rainha Ana da Inglaterra e a duquesa de Marlborough foram amantes até o surgimento de Abigail Masham.

Outros personagens poderiam ser citados numa imensa lista de homossexuais que marcaram a história ocidental, como Leonardo da Vinci, Oscar Wilde, Alan Turing, Bayard Rustin, Virginia Woolf, Eleanor Roosevelt e Frida Kahlo. Inclusive, há indícios que Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, manteve casos com alguns rapazes, entre eles, com o capitão David Derickson, que compartilhava sua cama sempre que Mary Todd estava ausente. O jornalista francês Fréderic Martel, após uma longa pesquisa com mais de 1500 integrantes do clero católico, afirmou recentemente que o Vaticano é uma das maiores comunidades gay do mundo.

Porém, apesar de suas posições de influência política, religiosa, artística e intelectual, por muito tempo esses personagens reproduziram e colaboraram na manutenção de uma cultura heteronormativa, fundada em princípios pouco naturais. Agentes de seu próprio tempo, sofreram e reproduziram em algum grau a ação conservadora sobre suas liberdades. O que colaborou para a criação de uma sociedade vigilante, controladora e punitiva sobre a liberdade do corpo e da sexualidade.

Por isso, não é estranho notar que o contexto de 1969 não era outro que não esse. A homoafetividade era considerado crime em praticamente todos os lugares do mundo e as penas aplicadas aos homossexuais eram extremamente severas. Ainda hoje o é em diversos países. O nazismo caçou homossexuais e os mandou para campos de concentração, identificando-os com o triângulo rosa. Na União Soviética, os homossexuais foram levados aos Gulags para serem duramente torturados. Nos países liberais, a polícia não poupou atos de barbárie a essa população. Especialmente nos Estados Unidos, onde a polícia era o terror dos homossexuais. Hoje em dia a situação não é muito diferente. Abundam denúncias de violações de direitos humanos em todos os lugares do globo terrestre. O Estado Islâmico mata em praça pública os homossexuais muçulmanos, na Chechênia organismos internacionais têm denunciado a existência de campos de concentração para LGBTs e mundo afora notícias de renascimento e fortalecimento de grupos neonazistas cujo objetivo é eliminar homossexuais. O Brasil não foge ao contexto. A cada ano, cresce o número de mortes de LGBT, atualmente um LGBT é assassinado a cada 19 horas.

Contudo, a década de 1960 foi bastante significativa no contexto das lutas pelos direitos humanos. No mundo todo, grupos civis se voltavam contra a Guerra no Vietnã, as comunidades de negras e negros se organizavam para reivindicar direitos civis e o movimento feminista ganhava novas forças. Os trabalhadores organizavam jornadas de luta por direitos e garantias. O maio de 1968 se tornou um marco dessas lutas.

Os LGBTs não fugiram a esse contexto. Cansados das perseguições provocadas em especial pelo aparato do Estado americano, na noite de 28 de junho de 1968, após uma batida violenta da polícia nova iorquina no Bar Stonewall Inn, que reunia LGBTs, a travesti negra Marsha P. Johnson resolveu revidar as agressões jogando copos e garrafas contra os policiais, o que formou uma linha de frente sob gritos de Poder Gay que durou cinco dias. O conflito foi o pontapé inicial para que o movimento LGBT se organizasse pelo mundo todo. No ano seguinte, no mesmo dia 28 de junho, surgiram as primeiras paradas do orgulho LGBT. Um movimento irrefreável, cuja inspiração nos dias de hoje é mais necessária do que nunca. Viva Stonewall, viva o poder LGBT!

Sobre a autoria

Daniel Barbier

Daniel Barbier

Vereador - 2° Suplente - do PSOL. Historiador, Me. Memória e Patrimônio. Secretário de Formação Política do PSOL Pelotas.

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