Pelotas

A baixa representatividade da mulher na política, por Juliana Dutra Vergara

Juliana Dutra Vergara

A participação das mulheres nos espaços de poder e decisões é condição fundamental para existência de um Estado democrático eficaz e de qualidade, e torna-se necessário para a elaboração de leis e políticas públicas para o enfrentamento das desigualdades de gênero.

No entanto, muito se questiona sobre a baixa representatividade da mulher na política, sobretudo porque são as próprias mulheres quem compõe a maioria da população e também o maior percentual de eleitores no Brasil.

Mas, não encontraremos respostas para esta problemática sob a ótica fria de dados e estatísticas. É preciso que, além disso, seja compreendido o papel que a mulher tem exercido dentro de um processo histórico e que compõe a estrutura da nossa sociedade.

Existem variáveis sócio-culturais que irão incidir diretamente na sub-representação da mulher na esfera política.

Tendo seu inicio já na formação das meninas, que possuem uma criação diversa dos meninos. Desde crianças as mulheres são preparadas para o cuidado da família, sendo estimuladas, através de brincadeiras, a serem cuidadoras dos filhos e do ambiente doméstico.

Diferente dos meninos, que desde novos são encorajados a explorarem seu potencial criativo, a serem competitivos e aventureiros. Desta forma, fica evidente a mensagem de que os encargos da casa são exclusivos da mulher, e qual lugar elas devem exercer na sociedade.

Na vida adulta, por exercerem os cuidados exclusivos com a casa e com os filhos, as mulheres irão enfrentar dupla, às vezes tripla, jornadas de trabalho; e, além disso, comprovadamente as mulheres recebem até 30% menos que o salário de um homem, quando realizado a mesma atividade.

Muitas dessas mulheres são mães solos e sustentam sozinhas seus lares e famílias.

Vejam que na corrida pela disputa nos espaços de poder as mulheres saem muito aquém da linha de partida.

Um fato que comprova que não é a falta de interesse pela política, e sim o excesso de trabalho que afasta a mulher desta, é que grêmios estudantis e centros acadêmicos possuem representatividade paritária, pois nessa época da vida as meninas não costumam possuir ainda estas “responsabilidades” de forma exclusiva.

Corrobora este fato, que não é falta de interesse na participação política, o percentual de mulheres filiadas em partidos políticos, que correspondem a 45%.

Também, é importante analisarmos como a mulher é vista na sociedade:

Mulheres não são estimuladas a falar em público, a disputar idéias.

Mulheres são lidas como seres delicados e sensíveis e aquelas que ousam quebrar este estigma, se impondo em defesa de suas idéias, são taxadas de agressivas, duronas, loucas ou até mesmo “histéricas”.

Ainda sobre socialização, precisamos falar acerca de como a mulher é representada pela mídia.  O fato de que há muito a mulher sofre com um processo de objetificação, tornando-a ferramenta propulsora de vendas, fez com que a própria mulher, ao longo do tempo, se auto identificasse com um objeto, ou seja, a mensagem que foi passada é que o poder da mulher está centrado em seu corpo, em sua beleza.  Logo, a mulher investe muito mais tempo se preocupando em ser bonita do que com sua formação.

E nesta busca desenfreada por uma beleza com padrão inatingível, acreditando ser ornamento, a mulher subestima o seu poder de transformação e acredita que seu objetivo é ser “bela, recatada e do lar”.

Isso demonstra que além de sair na disputa muito aquém da linha de partida a mulher inicia essa disputa só após se perceber como agente transformador.

Ainda precisamos ressaltar a questão, não menos importante, sobre a violência contra as mulheres, que ainda hoje são vistas como pertenças de homens.

E se essas mulheres, ainda, forem negras- ¼ da população brasileira- terão o duplo preconceito, de gênero e raça, e todas as implicações e dificuldades que se somam ao fato de ser negra em um país racista.

Devemos ainda enfatizar que o direito ao voto feminino só foi autorizado na década de 30. Até muito pouco tempo atrás a mulher, além de tutelada, era legalmente considerada inapta para a participação na vida política.

Soma-se a estas variantes sócio- culturais os obstáculos impostos pelo próprio sistema eleitoral, uma vez que no Brasil a eleição se dá através de lista aberta, o que não garante a conversão de candidaturas através das cotas de gênero;  além da própria formação intra partidária.

Os partidos tradicionais em seus cargos de direção são formados quase que exclusivamente por homens. E são os partidos que possui autonomia para a distribuição de verbas e tempo de TV, o que fatalmente é revertido em favor de outros homens, seus pares.

As mulheres, mesmo participando da política partidária seguem sem visibilidade e sem dinheiro para aparecerem na TV e fazerem campanhas políticas. Logo, os eleitores não terão acesso às suas candidaturas, que sem visibilidade serão as que terão menos votos.

Para superar essa desvantagem é preciso superar as barreiras sociais, culturais, eleitorais e intra partidária, para só assim garantir a participação igualitária na disputa política.

Garantir a participação plena e permanente das mulheres nos espaços de decisão é efetivar uma democracia de fato. Somente assim é que políticas públicas de interesses da sociedade e das mulheres poderão ser implementadas.

Sobre a autoria

Juliana Dutra Vergara

Juliana Dutra Vergara

Comente