Colunistas Política

A democracia que queremos é socialista, uma democracia socialista

PSOL Pelotas
Escrito por PSOL Pelotas

Por Gilson Moura Henrique Júnior

Discutir democracia nos dias Bolsonáricos é mais que uma necessidade,é uma exigência.

Porque ao mesmo tempo em que um governo com proximidades gigantes com o fascismo é mais que um risco à democracia, mas um risco à sobrevivência de partes consideráveis da população, a retomada de um revisionismo sobre Stálin é uma ataque às nossas concepções de partido, de socialismo e de ética.

E não, este debate não é sem pé nem cabeça ou apenas uma frescura acadêmica, porque o coração do stalinismo é a eliminação física de quem ele considera adversários, mesmo que entre estes estejam atores que protagonizaram a Revolução que ele disse que defenderia.

E em um momento onde a eliminação física de adversários é comemorada pela direita, vide as ironias em torno do feminicídio político de Marielle feitos pelos abjetos participantes do fã clube Bolsonárico,é mais do que canalha a defesa de um revisionismo que leve à redenção do praticante da eliminação física de ex-companheiros de revolução, seguida do assassinato de reputações que consegue fazer com que em 2019 seus fiéis fãs perguntem quantas revoluções fez Trotski, o membro do comitê central do soviet de Petrogrado, preso por Kornilov em 1917 e protagonista não só da Revolução como da sua defesa vide a criação e organização do Exército Vermelho que venceu a guerra civil contra os Brancos.

Stálin não tem lugar à mesa da Revolução, não por uma escolha moral apenas, mas pelo seu papel flagrante na sabotagem de todas as possíveis revoluções posteriores à Revolução Russa, inclusive a Espanhola, Chinesa e até a Cubana, tentando manter uma linha de defesa do socialismo em um só país e na traição da ideia de uma internacionalização do socialismo, presente no coração do marxismo, transformando-a em uma nova face do nacionalismo. Não é à toa que a Segunda guerra mundial foi chamada na URSS sob Stalin (E não só) como “Grande Guerra Patriótica”.

A transformação de uma união internacional socialista de nações em uma “Pátria Grande” é a cara da subversão reacionária do marxismo sob Stálin e do destroçamento do aparato teórico-prático organizado a partir de Lênin e Trotsky para a implementação de uma distorção do marxismo para um pastiche da dialética marxiana, organizado por um Stalin que em tese estava muito ocupado em governar o socialismo para escrever “teorias”, como alega seu fã clube.

A aversão à teoria é sintomático inclusive e dialoga com a aversão política ao conhecimento e ao pensar que a extrema-direita carrega consigo, embora sejam campos diferentes da mentalidade autoritária.

E aqui não é uma defesa da teoria da ferradura, reconhecemos o stalinismo como antifascista, mas um apontamento de que a aceitação do stalinismo, um louvor pouco aferrado à teoria marxista  e defensor da violência política e do extermínio de companheiros, é um problema a mais para o campo socialista.

Porque nós defendemos a democracia, a democracia socialista, presente nos programas de transição que contemplam a radical transformação da sociedade sob um ponto de vista de ampliação do campo decisório, da descentralização do poder, da economia, de uma revolução ecossocialista na produção de espaços de convivência e diálogo, de deliberação e de organização social.

E uma democracia socialista não tem apenas que ser antifascista, ela precisa ser anti autoritária, horizontalizante e avessa ao extermínio do outro como prática política. Uma democracia socialista não pode ter consigo a confusão entre unidade e uniformidade, entre a diversidade da classe trabalhadora e a ditadura de partido único.

O neostalinismo é a naturalização, novamente, da violência política como base da sustentação de uma ideia de que produzir o diálogo e a aceitação do outro como ele é  ausência de combate ao fascismo, como se o POUM na Espanha fosse um spa de trotskistas diletantes e não um feroz combatente, ao lado de anarquistas, ao franquismo e depois ao stalinismo que os entregou para morrer sob as botas de Franco.

Essa naturalização da violência política em uma conjuntura onde o nosso extermínio é esporte discursivo cotidiano é um reforço sim da possibilidade de eliminação do outro como método. E não estamos falando apenas da eliminação em fotografias, uma arte que o stalinismo dominou como poucos, mas a eliminação física. 

Precisamos de infográfico para explicar quem perde com a expansão dessa cultura, mesmo que fingindo ser de esquerda?

Nosso papel determinante é o da defesa do socialismo sob o ponto de vista ecológico e democrático, o ecossocialismo revolucionário que precisa se libertar de tudo o que ancorar o pensamento marxiano em sua versão mais vulgar, limitada e truculenta e que atinja o coração da defesa da democracia presente na produção dos soviets, comitês, comunas de revolucionários em suas mais variadas lutas através da história e do planeta.

O profundo acúmulo teórico prático que nasceu e se reproduziu depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS não deve ser lançado ao mar em nome de uma fantasia juvenil pouco afeita ao debate e que louva um genocida que conseguiu quase exterminar inteiramente a geração que liderou a Revolução russa de 1917. 

Menos ainda pode este acúmulo teórico prático ser transformado em banalidades acadêmicas por quem opta pelo louvor a uma liderança política que exterminava ex-companheiros enquanto conduzia o estado soviético com uma centralização que conseguiu fazer do planejamento quinquenal um produtor de miséria e fome. 

É com base no estudo detalhado pela historiografia dos documentos liberados da própria URSS que deram conta dos profundos crimes produzidos pelo stalinismo, entre eles a reprodução de uma matriz econômica absolutamente daninha pro meio ambiente, como era para a democracia e para a abolição das classes sociais, dado que a burocracia se mantinha como uma classe acima das outras e que mantinha para si privilégios.

O que se fez com esse conhecimento foi menos o revisionismo vingativo ou o laudatório contra ou a favor de Stálin, mas a produção de saídas teóricas que reavivassem as contribuições teóricas de Trotski, Rosa Luxemburgo, Walter Benjamin entre outros e que repensassem a política socialista a partir de Marx recuperando a obra do Velho Barbudo, a de Lênin e que procurassem meios de responder às dúvidas da luta anticapitalistas que não tinham mais a URSS como modelo.

E a saída foi a reprodução de uma ideia nada original, presente no coração revolucionário de nossas matrizes teóricas: a democratização dos processos decisórios é pedra fundamental de nossa política. 

Quem determina como se dá a produção e como se decide as necessidades políticas e teóricas da classe trabalhadora além dela organizada de forma amplamente democrática em conselhos e a partir destes em corpos decisórios que obedecem as deliberações destes conselhos?

Só uma democracia socialista pode dar a resposta óbvia: A classe trabalhadora é protagonista da condução de seus destinos.

E é com o perfil ecossocialista, democrata e com uma necessária personalidade revolucionária que poderemos derrotar o fascismo e não com um revival a quem  só se posicionou para derrotar o fascismo depois que ele já havia eliminado companheiros na Espanha, França, Alemanha e que logo após a guerra desprezou toda a defesa da URSS feita por Trotsky e o mandou matar.

A defesa radical da democracia precisa conter a defesa radical da existência de um tipo de política onde a eliminação do outro, especialmente de companheiros, não seja um valor corrente.

Não é possível um caminho revolucionário e anticapitalista radical sem uma percepção moral clara, onde nossa moral e a deles seja claramente definida e o nosso lado não seja fã  da execução de companheiros como método.

Para derrotar Bolsonaro não precisamos repetir seus mantras genocidas, mas combatê-los, inclusive no plano simbólico e não é aceitável que façamos um jogo de espelhos onde louvar a Coreia do Norte seja interessante ou diminuir o papel de Stálin na distorção do marxismo e na sabotagem de revoluções, na eliminação de companheiros e na divisão do movimento socialista seja aceitável.

Para derrotar Bolsonaro precisamos de mais, e não menos, democracia, e uma democracia ecossocialista.

Sobre a autoria

PSOL Pelotas

PSOL Pelotas

Comente