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A necessidade do impeachment de Bolsonaro, Mourão e a derrota de um projeto.

Por Gilson Moura Henrique Júnior

A política é em si a transformação na prática dos desejos coletivos em ação transformadora. 

Ou seja, lidar politicamente com qualquer assunto precisa ter objetivamente um lastro no possível.

Isso significa que transformações completas ou mesmo revolucionárias, mudanças complexas e tidas como irrealizáveis não estão no horizonte? 

Pelo contrário, isso significa que qualquer ação, programa, ideia ou tática precisa ter um planejamento para incluir o alcance de cada objetivo entre os movimentos realizáveis em um determinado tipo de intervalo de tempo.

Parece ser uma fala de cabeça de planilha ou etapismo? Pode parecer, mas é outra coisa, é o tratamento materialista dialético das questões.

O sonho de consumo de qualquer movimento político é transformar consignas em fato, é transformar uma fala em algo real e palpável, mas para marxistas o sonho precisa ter lastro no cotidiano para se transformar em real, ou melhor, precisa ter base para ser construído, precisa ter um processo consciente de massa crítica para ser realizável.

Massa crítica não se constrói? Sim, exatamente, mas essa construção precisa ter algum lastro na conjuntura para ter fôlego e sobreviver.

Em momentos como o da conjuntura atual é preciso ter em mente que uma ação de impeachment não é um balé em cima das nuvens, mas uma leitura da conjuntura onde a popularidade de Bolsonaro cai na mesma velocidade em que seu desespero expõe a população ao risco de mortes na casa dos milhões por sua conduta temerária diante da pandemia do COVID-19. 

O pedido de impeachment feito pelos parlamentares Sâmia Bonfim, Fernanda Melchionna, David Miranda e Luciana Genro ( que já conta com mais de um milhão de assinaturas e pode ser assinado clicando aqui) foi feito no limite do tempo certo, ou seja, poderia estar sendo construído até antes, mas foi pedido a tempo de receber a atenção necessária e pesar politicamente sem deixar o PSOL à mercê de atitudes equivocadas e até imobilistas que parte do partido tomou para si como práxis na franja das temerárias atitudes lulistas.

O impeachment hoje, em uma conjuntura de reconstrução da esquerda depois de uma das maiores derrotas de sua história no Brasil, é uma radicalidade possível para quem atua na institucionalidade e trabalha com o mínimo de unidade entre radicalidade e prudência.

E por que o impeachment e não o “Fora Todos”? Porque na prática se a gente quer que tudo caia a gente não quer que nada caia. 

Ainda precisamos que o DEM, o MDB, o Centrão, o PT,etc, atuem pelo impeachment tanto quanto a gente, ou não é o caminho que queremos, e sim uma ruptura revolucionária que não tem base no real.

Revoluções precisam ter uma série de processos complexos para serem chamadas como tal, não se constroem apenas, o que se constŕoi é a capacidade de ter inserção nela.

Um “Fora todos” exige uma conjuntura revolucionária com ascenso de lutas e de organizações de esquerda e o que temos hoje é uma conjuntura que até ensaia ares revolucionários, mas ainda está longe de ter hegemonia cultural de qualquer ideia de transformação radical e menos ainda organizaçòes marxistas, anarquistas ou de qualquer outra vertente da esquerda capazes de dirigir uma revolução.

Um “Fora todos” é uma revolução e revoluções precisam de mais que um desejo, precisam de um complexo de fatores que exigem uma leitura do real para se entender onde e quando eles se colocam como fato.

Maia e Mourão fariam uma agenda política diferente da de Bolsonaro? Não, assim como Lula e Dilma não transformaram a agenda política de FHC a ponto de ser uma ruptura, porque nunca foi. 

Lula e o PT dirigiram melhor o capitalismo nacional que FHC e trupe, foram competentes nas mesmas bases macroeconômicas, radicalizando algumas como a afiliação a uma gestão neoliberal da dívida pública,  e mantiveram outras, como o financiamento da educação e da saúde, a timidez na direção das políticas de direitos humanos, ótimas diante do quadro geral, mas tímidas em relação à necessidade e na política agrária e para povos indígenas e quilombolas que dificilmente contrariavam o agronegócio, no máximo limitavam timidamente seu avanço.

Só que assim como no impeachment de Collor e Dilma, a derrubada de presidentes incluem a derrubada de projetos políticos e abalam as forças sociais que os amparam. 

Se o necroliberalismo de Bolsonaro seria transformado em um neoliberalismo por Maia e Mourão, ao menos na teoria, ele teria uma resistência maior advinda do campo da esquerda fortalecido, da derrocada de um projeto radical de extrema-direita e pela reconquista do respeito social ao papel dos serviços públicos a partir da ação do SUS na pandemia do COVID-19.

Um vice no poder não tem o lastro popular do titular e precisa negociar para sobreviver no cargo, como Temer teve que fazer, como Itamar teve que fazer. 

As bases dessa negociação podem e devem ser pressionadas pela opinião pública e forças políticas organizadas.

Para derrotar Bolsonaro e seu projeto político é preciso ampliar o grau de unidade democrática, para derrotar todo o sistema é preciso reestabelecer parâmetros mínimos de capacidade democrática da sociedade, repactuar relações para que a sociedade se auto organize em prol de uma revolução.

As bases do neoliberalismo estão em frangalhos em meio a uma crise sistêmica, as bases da institucionalidade capitalista não. 

É possível derrotar o neoliberalismo hoje, influenciar a agenda e promover uma guinada de gestão política econômica, mas ainda não se apresentam formas e meios de superar o sistema de uma vez por todas. Não agora, não neste momento.

Para isso é preciso que atuemos e promovamos a agitação necessária de nosso programa de transição para um sistema que já é em si revolucionário. 

É preciso que junto com a luta pela derrubada de Bolsonaro e seu projeto, mostremos nosso programa ecossocialista de transformação política e econômica.

É urgente que ofereçamos ao projeto da morte ainda desejado pelo neoliberalismo uma alternativa onde a Renda Básica não seja apenas emergencial, o aluguel seja transformado em residência permanente para quem ganha até três salários mínimos, saúde e educação recebam verbas dignas da necessidade de financiamento e que se dê valor à produção científica que promova o bem viver para todos.

Produzir o “Fora todos” exige a derrota do projeto, incluindo a derrota de Maia e Mourão como membros dele, mas para isso é preciso um começo e a oferta de uma alternativa, e essa alternativa é um programa e a liderança de uma nova forma de ver a sociedade, o Estado e a política, estando à frente da esquerda para a população. 

Para conquistarmos isso é preciso que nos apresentemos à frente do Impeachment de Bolsonaro.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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