Colunistas Política

Na hipótese de não sabermos o que fazer é que precisamos agir

Não sou exatamente um gramsciano ou mesmo um leitor voraz da obra do sardo revolucionário que assombra a direita com aforismos que ele nunca escreveu e volta e meia vira muleta para uma esquerda que nunca o leu.

Há, porém, uma parte de um de seus textos em que ele cita o otimismo da vontade e o pessimismo da razão que cala fundo em minhas tentativas de análise da realidade.

Não, não li o texto original, na verdade a frase mexe com minha pessimista racionalidade desde que foi lida na epígrafe de um texto, escrito maravilhosamente pelo saudoso companheiro de Revolutas Rui Kureda, publicado no também saudoso site da organização.

Desde que o li procuro equilibrar o otimismo da vontade com o pessimismo da inteligência.

Pode parecer nariz de cera, mas não é, é fundamental introduzir a frase, em que Gramsci nos aconselha que “devemos ser pessimistas pela inteligência e otimistas pela vontade”, porque há conjunturas como a atual que a análise nos traz o pessimismo dos que não se iludem, assumindo uma miopia proposital, tampouco permitem que o pessimismo os esmoreça e os faça desistir.

Há momentos em que após derrotas precisamos nos lembrar da enorme tradição que carregamos conosco, todos os seus símbolos, toda a sua estrutura analítica, toda a força produzida pelo sangue de nossos mortos, pelos versos de nossos poetas.

Não estamos alegres, é certo, mas porque razão haveríamos de ficar tristes? Maiakovski não escreveu isso à toa, mas para que possamos atravessar o agitado mar da História com o afinco daqueles que precisam superar as leis imóveis dos que detestam suas radicais vagas e as tempestades pelas quais demos e damos a vida para vencer.

Nada de novo há no rugir das tempestades, caros companheiros!

A dureza das grandes crises foram feitas para que consigamos superar em busca dos objetivos que são a demolição de todas as estruturas que nos aprisionam em classes esmagadas pelas botas de generais, sufocadas pela fome, exangues pela crueldade dos que enriquecem pela força de nosso trabalho.

As ameaças e as guerras, havemos de atravessá-las, movidos pela afiada razão a calcular, com a dor dos pessimistas, as melhores formas de caminhar entre destroços, e com a força de vontade do otimismo que sabe que ao derrubar os muros que nos cercam teremos à nossa frente todo um mundo a construir.

O título afronta os mais apegados ao sentido do fazer como se fosse produzido por planejamentos nefelibatas, erguidos por mestres do vazio, filósofos de um mundo arredio ao concreto, mas para nós, que na mina e da fornalha produzimos reinados, é impossível um fazer que não seja o do implacável apego ao concreto. É no apego ao cotidiano, ao feroz observar das conjunturas, das realidades, do que o mundo nos dá como base real e concreta de agir que produzimos nossas revoluções.

Não sabermos o que fazer não nos impede de agir para produzir a ação que nos ensine o fazer.

Nossos planos são feitos da realidade dos problemas e não das fórmulas mágicas dos que encaixam teorias em um real avessos a fantasias.

Não enfrentamos gigantes disfarçados de moinhos de vento, mas estruturas construídas por sociedades, compostas por gente que, dividida em classes, se relacionam de acordo com a força que possuem e gozam do poder que detém nesta correlação de forças para resistir ou oprimir quem está acima ou abaixo de si nesta estrutura.

E é por isso que o desânimo é inimigo do fazer, porque enxergar a dificuldade de construir uma nova sociedade só pode ser visto como um meio de dissecar as formas possíveis de fazer do problema uma solução.

Há enormes dificuldades em viver sob Bolsonaro e em produzir a derrota dele. 

Há um caminhão de problemas para derrotar de tudo o que o faz liderar uma frágil hegemonia do necroliberalismo e da extrema direita, mas isso não significa que devemos esmorecer em nossa vontade de derrotar a ambos e sim que precisamos produzir meios de superar a dificuldade através de uma análise crua do real que permitam planos para que esta derrota ocorra.

Precisamos ouvir a voz do pessimismo: hoje o impeachment não sai!

Temos também dar voz ao otimismo: precisamos construir a massa crítica para que o impeachment saia e também produzir a massa crítica para resistir e superar um governo Mourão ou Maia!

Como fazê-lo? 

São muitas as formas, não temos como saber o que fazer para que o ato produza o efeito necessário, mas isso não significa que não possamos ter táticas para produzir o efeito que queremos e  que não devemos pô-las em ação.

É preciso, em primeiro lugar, manter o impeachment como pauta que já é, e está em todos os programas jornalísticos, se discute no Congresso e no Planalto, gostem ou não os que preferem que nada aconteça para que sua imobilidade travestida de análise seja ressaltada no ávido mundo as redes sociais.

Em segundo lugar é preciso sacudir a poeira do desânimo e entender que cada perdigoto contaminado por COVID-19 ejetado da fossa bucal do Presidente da República é um ato de resistência a uma crise política que ele só consegue enfrentar com toma lá dá cá e factóides diários. 

Jair hoje reage ao medo de perder o cargo, gostem ou não os profetas da impotência. 

E é observando com o cuidado que o pessimismo da razão exige, que enxergamos os detalhes do baile de máscara do poder palaciano e que expõe um enorme medo de perder o cargo e ver mais do que gostaria saindo na primeira página dos jornais.

Já com o otimismo da vontade produzimos as ações que se pretendem parte de um processo de criação de massa crítica para que o impeachment saia.

O impeachment de Collor, em situação extremamente menos grave das de hoje, ocorreu entre maio e dezembro de 1992, e isso ocorreu entre a entrevista de seu irmão Pedro e sua renúncia.

O impeachment de Dilma se iniciou em dezembro de 2015 e só chegou às vias finais em agosto de 2016. 

Em resumo, processos de impeachment não acontecem na velocidade do twitter ou do Facebook, menos ainda do Whatsapp e precisam que se construam massa crítica para que ocorram. 

De nada adiantam as lamúrias dos que desistem porque nada acontece em 24 horas ou os que repudiam as notas de repúdio sem produzir nada além de notas de repúdio menos potentes em 280 caracteres.

É preciso que paremos de esperar do universo a resposta mimada do tempo dos aplicativos e comecemos a construir as formas pelas quais nossas propostas políticas ganham espaço e força para se tornarem realidade.

Política não se faz com pensamento positivo ou boas energias, mas com disposição de pôr em prática o que se defende como programa.

Saber o que fazer depende de saber como fazer e não do domínio de toda a teoria que embasa a estrutura que virá.

Organizemos o futuro, ele é possível.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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