Sempre Fomos Resistência!

Sempre Fomos Resistência!

Nota Pública da setorial de negras e negros do PSOL Pelotas

O ano que se encerra foi de intensas discussões e as pautas que dizem respeito aos negros e negras deste país fizeram parte de inúmeros debates públicos, seja nos vários casos de racismos noticiados Brasil afora, seja no período eleitoral em que foram apresentadas propostas que significam ataque direto a negritude. E, ainda, 2018 foi o ano em que uma grande figura representativa para a negritude teve sua vida ceifada, foi o ano em que perdemos a magnífica Marielle Franco (em um ataque que vitimou também o motorista Anderson Gomes). Até agora a justiça brasileira “não descobriu” os nomes dos assassinos. Mas, é necessário afirmar: se uma mulher negra, tão bem votada, não chega nem a metade do seu mandato e, ainda, passado quase um ano de sua morte, seus assassinos ainda não têm os nomes revelados, é porque quem a matou são os mesmos que não queriam que ela fosse eleita, os que ela denunciava em suas falas, os mesmos que ameaçaram sua companheira, aqueles que propagam o ódio para a comunidade negra a cada passo que conseguimos dar.

A luta por justiça para Marielle Franco segue sendo necessária, assim como é essencial a defesa do legado de sua atuação. Sua morte foi emblemática, certamente um baque gigantesco para todas e todos com ideias similares. Marielle ocupava um espaço em que historicamente os negros e negras deste país são minorias, um espaço de poder e decisão. O ataque covarde foi a forma que encontraram de calar uma voz que não deixou em nenhum momento de denunciar injustiças. Marielle era uma mulher, negra, lésbica, Marielle era uma lutadora.

E lutar é uma marca constante dos negros e negras do Brasil. Um resgaste histórico honesto mostrará a luta dos negros durante o período que foram escravizados, exaltará as revoltas nas senzalas, o movimento abolicionista, o movimento quilombista, assim como demonstrará que os negros foram protagonistas na luta pela abolição. Da mesma forma que uma análise social sincera nos dirá que, após 1888, a vida das negras e negros deste país enfrentou inúmeros obstáculos, produzidos intencionalmente pelo Estado brasileiro.

Atualmente, ainda há muito o que mudar na sociedade. O racismo tem flagrante existência no cotidiano e precisa ser combatido. O genocídio dos negros é fato comprovado em dados que demonstram números absurdos de vítimas negras, sobretudo os jovens. Há desigualdades no mercado de trabalho, não ocupamos muitas instâncias de poder, ainda somos minorias nas universidades. Essa realidade social da população negra torna necessária a luta por dias melhores. Nossa defesa é por mais direitos à população negra, por ampliação das políticas afirmativas, por mais políticas de valorização da cultura negra, por mais demarcações de terras quilombolas, por respeito às religiões de matriz africana, por uma outra política de segurança pública (em que deixemos de ser alvos), por saúde e educação pública gratuita de qualidade. Nossa defesa é por uma sociedade radicalmente diferente, em que pessoas negras tenham a possibilidade de executar toda a sua potencialidade sem serem barradas pelo racismo.

Por Dandara! Por Zumbi! Por Marielle Franco! Por todas as guerreiras e guerreiros que lutaram antes de nós.

Pelotas, 29 de Dezembro de 2018, setorial de negras e negros de PSOL Pelotas.

Sobre o autor:

Julio Domingues
Militante do movimento negro, do PSOL Pelotas e assessor da vereador Fernanda Miranda.