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Crise, participação e educação

Foto: Diário da Manhã
Maicon Bravo
Escrito por Maicon Bravo

Em momentos de crise os conflitos tendem a se tornar mais evidentes e as contradições tendem a se acentuar. A crise ocasionada pela pandemia do coronavírus vem expor a natureza autoritária do capitalismo e dos governos capitalistas, em especial, neste momento, a respeito da educação.

Por um lado temos a educação enquanto principal forma de construção de uma consciência crítica, principalmente se tivermos seus trabalhadores bem remunerados e não sobrecarregados, estruturas escolares adequadas e que se oferte aos estudantes as condições de acesso e permanência necessárias para o desenvolvimento do trabalho discente. Se em situações de normalidade estas condições já não eram atendidas, em um contexto pandêmico a precarização da educação se agrava.

Por outro lado, a escala ascendente da taxa de contágio no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Pelotas demonstram que ainda não é possível cogitar o retorno às aulas presenciais. Não há segurança nem para os trabalhadores e trabalhadoras da educação e suas famílias, nem para estudantes e suas famílias. Reabrir escolas, agora, seria uma medida que escaparia dos conceitos de imprudência e arbitrariedade e adentraria o campo da desumanidade e da irracionalidade. Do mesmo modo, estabelecer procedimentos de ensino remoto que deixem de fora uma ampla parcela dos estudantes evidencia a negligência que governantes e seus secretários têm por famílias trabalhadoras pobres.

A pandemia do coronavírus aprofunda a crise em que a educação pública se encontra no país – em particular a educação básica –, quando aguça o caráter alienante do trabalho docente imposto a educadoras e educadores. Trabalhadores e trabalhadoras da educação , bem como estudantes e suas famílias, são totalmente destituídos da capacidade de construir conjuntamente alternativas para contornar os obstáculos que a pandemia coloca para a efetivação de relações pedagógicas válidas, transformando em autômatos que devem executar ordens que vêm “de cima”: secretarias estadual e municipal de educação. Vale lembrar que, em alguns casos, os tomadores de decisão não têm competência alguma para ocupar o posto que ocupam.

Comandados de longe pelas secretarias, os trabalhadores e trabalhadoras da educação têm de arriscar suas vidas para executar planos mirabolantes e malfadados idealizados por sujeitos cuja principal preocupação não é nem pode ser a educação de qualidade e universal para os trabalhadores e seus filhos. Estes tomadores de decisão, quando muito, elaboram políticas para a educação, no momento em que deveriam se preocupar em promover políticas com a educação. Trabalhadores e trabalhadoras devem ser os primeiros a ser consultados e convidados a construir conjuntamente as políticas de educação neste período de crise, pois são eles e elas que conhecem a realidade concreta das escolas, suas limitações e potencialidades.

Por isso, qualquer iniciativa que diga respeito à educação e não se preste a ouvir trabalhadores e trabalhadoras da educação, além de estar fadada ao fracasso no que se refere à oferta de qualidade e universalidade aos estudantes, beira o extremo de não se importar com a vida humana. Qualquer proposta arbitrária nesse sentido é uma proposta violenta, evidenciando a realidade conflitiva do capitalismo e suas contradições inerentes, pois considera inválido o que pensam educadores e educadoras, destituindo-lhes da humanidade e transformando-os em peças de engrenagem substituíveis em uma máquina que visa produzir lucro às custas de vidas humanas.

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Maicon Bravo

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