Política

A conta da crise

A situação política do Brasil apresenta-se marcada por reviravoltas, não recomendando
afirmações taxativas. Mesmo assim é possível afirmar que os setores da FIESP, mídia e partidos
tradicionais, que organizaram e defenderam o impeachment de Dilma, pretendiam, a partir da posse do
governo ilegítimo de Temer, montar um cenário de estabilidade política e econômica que lhes permitisse
aplicar integralmente um conjunto de medidas para manter os lucros de banqueiros e grandes
empresários, enquanto a maioria da população paga pela crise.
Motivados por um resultado aparentemente favorável nas eleições municipais, pelo controle em
um congresso nacional que atua majoritariamente se lixando para a população e pelo apoio da mídia
tradicional, resolveram acelerar suas medidas em todos os níveis. O governo federal fez avançar a PEC
que coloca teto nos investimentos sociais e prepara contrarreformas na previdência e na legislação
trabalhista para retirar mais direitos da população.

Os governos estaduais, tendo como principais expoentes o RS e o RJ, apresentaram pacotes
econômicos que apontam no mesmo sentido. A motivação destes setores foi tanta que até em nosso
estado, onde a principal marca de Sartori era não ter propostas, foi apresentado um projeto econômico que
vai além do absurdo parcelamento de salário de trabalhadoras e trabalhadores. Parcelamento este que já
começa a ser cogitado em alguns municípios, onde também são apresentadas medidas como modificações
nos planos de carreira de servidores para retirar direitos, e até mais repasses à iniciativa privada como no
caso de Pelotas com a PPP do SANEP.
O apoio midiático a este conjunto de medidas é tanto que há pouco espaço para a reflexão sobre
propostas alternativas. O governo federal por exemplo, grande concentrador de recursos em nossa matriz
orçamentária, destina parcela significativa do PIB para o pagamento de juros e amortizações da dívida
pública. Todos os governos das últimas décadas, sem exceção, mantiveram estes pagamentos sem sequer
debater a possibilidade de uma investigação desta dívida, que quanto mais se paga, mais cresce.

O governo atual, para justificar a PEC do teto, utilizou como exemplo o nosso orçamento
doméstico, afirmando que não podemos gastar mais do que nosso salário. Há muitas limitações na
comparação entre o orçamento público e o orçamento doméstico. Se ela é válida, é interessante também
questionar quem de nós recebe um boleto de cobrança pelo correio e sai correndo para pagá-lo, mesmo
sem saber a que se refere a dívida. Pois é isso que os governos historicamente têm feito com a dívida
pública. Por isso é tão importante debater a investigação (ou auditoria) desta dívida. Além disso, há pouco
debate sobre propostas como a taxação de grandes fortunas e o combate severo à sonegação de impostos,
medidas que trariam importante impacto ao orçamento público, fazendo com que os mais ricos pagassem
impostos com justiça, sem a necessidade de cortes nos já precários serviços públicos.

Debater estas e outras medidas alternativas é uma necessidade para a construção de um outro
caminho. Os governos e seus apoiadores, que até poucos dias tinham a situação sob controle, começam a
apresentar sinais de fraqueza, principalmente a partir do governo federal e seus principais apoiadores no
parlamento, também envolvidos em escândalos de corrupção e na tentativa de abafá-los. O dinamismo da
situação nacional exige reflexão permanente, e bandeiras erguidas.

Sobre a autoria

Jurandir Silva

Jurandir Silva

Assessor da Deputada Federal Fernanda Melchionna; membro do Diretório Estadual do PSOL-RS, membro da Executiva e do Diretório Municipal do PSOL Pelotas.

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