Política

A queda do PIB de 9% em 2020 e a perspectiva das lutas

Fonte: Poder 360

Em 2015 o Brasil teve uma queda de 3,5% no PIB segundo o IBGE, em uma situação de crise externa, crise hídrica e foi tratado pela imprensa como uma triste viagem aos anos 1930.

A queda do PIB em 2015, e novamente na mesma taxa em 2016, foi uma das causas da aprovação em 2016 do impeachment de Dilma Rousseff, um impeachment sem crime além da impopularidade. 

De 2017 a 2019 o PIB cresceu a uma taxa em torno de 1,1% ao ano e na prática recuperou metade das perdas dos anos anteriores, mas qualificando uma economia no mínimo estagnada. 

O resultado desta queda de praticamente 7% quase pôs abaixo o acumulado de 2002 em diante, tendo em 2010 o maior crescimento, de 7,5%, auge do crescimento ininterrupto do PIB brasileiro desde 1995

A crise econômica causada pela recessão de 2015 e 2016 foi parte de um recuo atrasado da economia depois do enfrentamento da crise de 2008 pelo governo Lula, mas também foi o suficiente para criar o clima político que pôs abaixo o edifício político erguido pelos governos do PT, e gerar para toda a esquerda uma série de dificuldades que levaram à derrota política coletiva que nos impôs a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A questão é que a crise política que veio da crise econômica foi palco de uma retomada do complexo de pensamento neoliberal agravado pelo necroliberalismo proto fascista do atual governo e por uma série de ataques e desmontes tanto no arcabouço de direitos sociais garantidos pelos governos e pelas lutas sociais desde os anos 1990, quanto nos direitos trabalhistas duramente conquistados e consolidados nos anos 1930, e praticamente destruídos desde ainda os governos do PT, com uma praticamente devastação sob Temer e Bolsonaro.

De 2015 em diante houve aumento do déficit de moradia depois de um recuo de quase dez por cento em 2007, aumento do número de brasileiros na extrema pobreza e no mapa da fome, desemprego  e informalidade recorde e diversos outros efeitos que juntaram a crise econômica com o avanço neoliberal desmontando direitos, suporte social, estado,etc em nome do aumento da taxa do lucro.

A questão aqui é que tudo o que ocorreu de 2015 em diante é nada diante do que se apresenta como possibilidade de queda do PIB a partir de projeçòes do FMI, OCDE, IPEA e Banco Mundial.

O FMI aponta uma queda de 91%, a OCDE de 7,4%, o Banco Mundial de 8%, o IPEA de 6%  e a Fitch Ratings  projeta uma queda de 7%  do PIB brasileiro em 2020. 

Paulo Guedes, o guru messiânico de um mercado ou cínico ou tosco, diz que vão errar, embora o próprio Banco central tenha apontado uma queda de 6,4%, e reafirma seu papel de vendedor de terrenos na lua cujo único projeto é a liquidação do patrimônio público e socorro aos bancos, não tendo a mais vaga ideia de como gerir a economia de um estado nacional do tamanho do Brasil.

E o que se projeta à frente como  impacto social da queda brutal do PIB, a maior de nossa história, é assustador se não for respondido com mobilização, luta e forte organização social de resistência.

As saídas organizadas pelo neoliberalismo e seus representantes no estado simplesmente não funcionarão, como já não vem funcionando as meias medidas mal tomadas pelo governo Jair Bolsonaro no enfrentamento à pandemia, piorando mais o impacto econômico ao combater o isolamento social e permitir que a crise sanitária amplie seu impacto sistêmico e atinja a economia. 

As propostas alternativas, que transitam entre um neo keynesianismo e um clássico nacional desenvolvimentismo, podem ter um impacto positivo, mas não contemplam o grau de acirramento da luta de classes e o tamanho do esforço necessário para recuperar um cataclisma econômico, ambiental e social que se avizinha.

Porque é dado e óbvio que Bolsonaro não tem a menor ideia nem de como governar segundo sua agenda genocida, imagina governar com qualquer mínima qualidade que indique uma recuperação econômica, e o mercado nada fará a não ser realocar recursos onde poderá render algum tipo de lucro.

Se nada for feito ou proposto, não será pequena a possibilidade de um caos social que tende a uma ruptura brutal da normalidade, mesmo a pior normalidade, em um rumo que facilitaria o projeto de poder miliciano e fundamentalista religioso, que reina na desordem desumana e fragmentada de um caos administrativo, político e econômico.

Há alternativas e a maioria delas nos dá um caminho e uma projeção otimista no enfrentamento ao caos. Primeiro é a já colocada retomada de uma ideia de forte participação do estado na economia sob o ponto de vista do suporte social à população, encontrando eco em notórios defensores de políticas liberais, como economistas de estimação da mídia e até no DEM de Rodrigo Maia. 

Em segundo lugar, a organização popular renovada por um deslocamento de protagonismo para homens e mulheres pretos e pretas, mulheres em geral, movimento LGBT+, o brilhantismo dos movimentos de periferia e favelas no enfrentamento da pandemia com a mistura de forte organização local que remete ao melhor da solidariedade comunitária apontam para uma organização da fragmentação como diferença e diversidade e não como caos isolacionista e individualista.

Um terceiro fator é o surgimento de novos atores da luta de classes que avivam, internacionalmente, uma discussão a quente do novo capitalismo uberizador, e a greve dos entregadores de aplicativo constrói aqui um movimento crucial para entendermos o novo normal do pós-pandemia.

Há ainda o aumento do papel político dos movimentos ambientalistas,ecossocialistas e étnicos relativos aos movimentos indígenas e que se juntam aos movimentos antirracistas aplicando uma nova qualidade dos movimentos emancipatórios, incluindo uma percepção antirracista da economia, da ecologia, da ética, da política, da cultura e de toda a percepção da vida humana.

A proposta surgida nos EUA, de um Green New Deal, tende a se espalhar mundo afora e já conquistou cadeiras municipais nas eleições francesas. 

Os abalos na extrema-direita não se resumem à  previsível queda de Bolsonaro diante do desastre econômico ou da derrota de Trump diante de sua inépcia em conduzir os EUA na maior crise de sua história, atingem Boris Johnson, Salvini, a extrema-direita polonesa, latino americana e ainda pode vir a abalar o último bastião ainda respirante da estética da estu[diez Deus Vult: A Hungria de Orban,

O fato é que temos diante de nós um desafio que é lidar com o decrescimento forçado do PIB Brasileiro, e também do mundial, que deve cair cerca de 5% em 2020 (a maior desde 1929), e para isso temos de propor políticas que contemplem tanto as necessárias mudanças políticas quanto as obrigatórias mudanças econômicas.

Um Green New Deal é muito bem vindo, mas ele precisa conter propostas que pelo menos dialoguem com o Ecossocialismo e seu planejamento democrático, que contempla mais que a mudança na forma como o capital enxerga o meio ambiente, mas contempla a ecologia tendo como ponto de partida o fato de que tudo, inclusive a política, precisa ser verde.

Não adianta discutir mobilidade, moradia, economia, trabalho, sob o ponto de vista sustentável, mantendo estruturas decisória,s produtivas ainda presas à percepção centralizadora e hierárquica do capital. 

Só com um planejamento democrático ecológico, com a população sendo a condutora das decisões econômicas e políticas, sem ser conduzida pelo mercado ou pelo Estado, podemos avançar para um mundo que consiga sobreviver à necessária revisão da própria ideia de cotidiano que a crise sistêmica que vivemos nos obriga a fazer.

Na dança da discussão entre o poder privado sobre os meios de produção ou sobre o poder estatal dos mesmos meios, é preciso dizer que quem deve controlar os meios de produção é a sociedade.

E antes que se caia na ladainha conservadora de medo de um centralismo é preciso dizer que a proposta é inversa à essa, defendemos é uma descentralização global dos processos decisórios político econômicos, que quando centralizados ignoram realidades locais, impactos ecológicos, sócio-étnicos, culturais, necessidades específicas e toda a estrutura que é preciso transformar para que a desigualdade seja combatida com sucesso.

Uma queda de 9% do PIB nos obriga a repensar para além da caixinha das ferramentas de combate imediato. É preciso garantir renda mínima, moradia, trabalho, educação, saúde e segurança, mais é preciso que também se garanta uma transformação político-social que nos permita uma estrutura que suporte a população como parte interessada no desenvolvimento humano, como ciente do impacto social e ecológico da produção e do trabalho, como fundamentalmente a força motriz de todos os sistemas.

A preocupação conservadora com o isolamento social, que os levou a sabotá-lo, porque a economia estava paralisada, talvez seja um bom caminho para que eles finalmente entendam que quem move essa economia, e a sociedade, é a população cujos esforços conservadores, reacionários, fascistas e necroliberais tenta alijar sempre dos processos decisórios.

A preocupante queda do PIB Brasileiro é uma má notícia que pode ser transformada em uma oportunidade se conseguirmos nos organizar para enfrentar os problemas com as soluçòes acumuladas pelas nossas lutas. E a saída é um projeto claro de ecossocialismo e planejamento democrático.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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