Política

O espaço e o tempo das mudanças políticas ou o combate a Bolsonaro e ao fascismo não é mata mata, é pontos corridos.

Quando Fernand Braudel escreveu sobre os diferentes tempos históricos (eventos e fenômenos de longa, média e curta duração na História), ele tratava de elementos mais complexos do que a história do cotidiano ou a diferença das percepções de tempo nos diferentes momentos da história, ou até das diferenças do tempo político nos diversos momentos da história.

As noções e categorias por ele descritas, no entanto, fazem possíveis análises sobre os momentos em que o tempo da política cotidiana reage e se relaciona com o tempo dos desejos políticos.

É possível um salto teórico a partir de Braudel que explique porque o tempo da política institucional difere do tempo da política cotidiana e como essa age e reage ao tempo da política cotidiana refletida na velocidade das redes sociais.

Quando Thompson fala da influência dos relógios de pulso, de bolso e de ponto na transformação da concepção de tempo da humanidade, transformando a percepção do tempo da natureza, ele trabalha parte das ideias que relacionam os diferentes tempos políticos, pois infere que a tecnologia transforma as relações políticas, sociais e culturais.

O tempo anteriormente ligado diretamente ao trabalho campesino, mensurável pelo nascer e se pôr do sol, pelas estações do ano e as transformaçòes do plantio à colheita, se faz o tempo do trabalho medido pela relação entre o tempo e o valor do trabalho, ou seja, que a medição do tempo fazia parte do controle patronal sobre o quanto ele pagava ao trabalhador por hora. O trabalhador deixou de controlar o tempo a partir da natureza e se tornou controlado pelo tempo do valor de seu trabalho em exercício sob o controle do patrão nas fábricas antes e hoje nos escritórios e nas ruas via apps.

Essa transformação da percepção do tempo a partir da tecnologia foi possível também pela percepção das permanências e perdas de elementos das culturas, das relaçòes, da economia e da política a partir da ideia de diferença entre fenômenos em relação ao tempo.

Se há permanências de elementos pré-cristãos ou pré-modernos, na vida cotidiana, há a transformação da relação do tempo com estes valores, há mudanças na esfera da própria ideia de quanto demora ou atrasam as mudanças ou permanências no cotidiano das pessoas.

A própria ideia do trabalho 8 horas por dia se transforma a partir da imposição do capital do trabalho mensurado pela contagem minuto a minuto ou por empreitada ou por uma série de relações mediadas pela lógica da cultura da internet. O relógio morreu, não mede mais oito horas de trabalho,, virou cronômetro e mensura o valor trabalho a partir da ideia de tempo relacionado com a velocidade do controle dos apps, ou das exigências do trabalho home office controlado por aplicativos que descobrem quando e quanto tempo um trabalhador ficou atuando sobre determinadas tarefas.

Esse tempo, mensurado e acelerado, é o tempo do cotidiano do trabalhador, é o tempo do cotidiano do homem e da mulher comuns em seus espaços reais e virtuais, usando o Twitter, o Facebook, o Whatsapp para tudo, pro trabalho, vida social, contato com a família.  

O tempo acelerado do momento em que o vivente acorda até pouco tempo antes dele dormir, que media a própria relação com a comida, com a cerveja do fim do dia, com o assistir filmes e séries ou jogos de qualquer esporte, em que cada momento é comentado nas redes sociais ou no zap, é o tempo exigido das instituições, partidos e movimentos no jogo político diário. 

E é aí que a porca torce o volumoso rabo. 

Porque a gente precisa lembrar que o tempo transformado pela tecnologia é um tempo que tá na história como um tempo dos eventos de curta duração, do cotidiano, as instituições já estão entre os eventos e fenômenos de média e longa duração.  O tempo milenar da Igreja reage ao tempo secular das repúblicas, democracias e partidos, ambos se batem contra o tempo veloz do cotidiano do mundo das apps.  Quando a política a quente se mexe, ela se mexe no tempo secular, quando a exigência a ela grita, ela se move no tempo quente do agora de redes sociais que trata, semanas como nossos antepassados tratavam os meses e até anos. 

Muitos dizem que as esquerdas são do tempo do SMS e da carta e por isso estão atrasadas, quando todos, via de regra, no mundo político vivem no tempo da carta, e que não, a esquerda na luta cotidiana não tá no tempo do SMS, usa memes há mais de década e atuam de forma tranquilamente suficiente nas redes sociais, a diferença é que não oferecem o cardápio de meias verdades e fake news que elegeram fascistas. E aí, nessa “análise”, também mora a percepção que a eficiência de um combate ao fascismo, por exemplo, está na velocidade e no domínio da comunicação de curto prazo e não na exploração de outros meios de comunicação e construção, tática inclusive, de médio e longo prazo. Não há respostas fáceis pros combates em curso, mas há respostas mensuráveis, como a clássica necessidade de lidar com dados para convidar a razão a perceber o real sem o impressionista dos trending topics.  Um exemplo é o auxílio emergencial ter ajudado Bolsonaro a reverter queda de popularidade mesmo ele tendo sido contra, e mesmo a esquerda perdendo essa narrativa ela continuar na luta que é apropriada por ele, por valores e porque o tratado aqui é do longo prazo.  

Bolsonaro usar de forma oportunista uma vitória da esquerda não explica e nem garante como ele permanece se opondo à renda básica universal e buscando evitar sua aprovação. O efeito do roubo da vitória é de curto e médio prazo, a durabilidade de manutenção de sua popularidade depende dele apoiar algo que o colocará contra si mesmo. Da mesma forma a ideia de naturalização das quase cem mil mortes como vitória de Bolsonaro trata uma necessidade populacional de ir para rua conseguir o que comer comos e fosse uma opção consciente pelo naturalizar mortes, misturando o playboy que vai pro bar mesmo podendo ficar em casa, com o garçom que o serve, e tem que estar no bar para ter o que dar de comer para família. 

Tudo isso se mistura com a sensação do momento exigindo que tudo mude o tempo todo no mundo à revelia dos tempos de cada espaço social. E o impressionismo ainda se junta com o pessimismo estagnado de quem acha que por ele não ter na mesma semana da indignação o resultado final, que nada vai dar em nada e nada se está fazendo,  Bolsonaro é o primeiro presidente que só tem o apoio de sua base original e está no poder por uma relação entre o contexto pandêmico com o apoio  que ainda tem de setores da economia em prol de sua agenda de destruição do estado, do meio ambiente da própria agenda genocida, mas seu poder é limitado, seu acesso idem, e tudo isso depende dele não ter resistência na rua, que é causado pela necessidade de ficarmos em casa para tentarmos diminuir o número de mortos. E nem falamos aqui na ausência de plano para tentar reverter uma queda brutal do PIB e do impacto que isso terá no cotidiano populacional e na própria popularidade e até capacidade de influência no tempo das redes que ele e seus correligionários terão. 

A questão é que o tempo de reação ao golpe de 2018 passa pelo tempo de reação a Bolsonaro e não, isso não terá uma solução mágica com um gol aos 45 minutos do segundo tempo, isso demora, terá que existir como um planejamento de médio prazo para impedir o desastre de uma reeleição construindo uma oposição dura diária e paciente, enfrentando cada canto possível de ação do governo como um combate duro rua a rua, casa a casa. 

A percepção de hegemonia fascista não analisa a queda gritante do apoio cotidiano  Bolsonaro, aquele que se ouve nas rua,s no mercado, a timidez cada vez maior deles nas redes, a menor capacidade de influência, as perdas no congresso e STF, a própria opção por ampliar os ataques do gabinete do ódio a pessoas com enorme capacidade de reação como o Felipe Neto. 

Pior é ignorar o peso do luto como um perigo enorme para narrativa Bolsonarista, o que se diz ser naturalização da morte pela população é o fato óbvio que o trabalhador que é obrigado a se pôr em risco para ter dinheiro do aluguel e se põe em risco triplo em coletivos lotados não vai mesmo parar de tomar sua cerveja ou de ir para rua, não porque acredita no presidente, mas porque não tem opção, sem contar que ele sabe quem é quem nas diversas responsabilidades sobre os mortos a seu lado. 

Cloroquinas e outras receitas milagrosas vendidas pelo presidente e seus asseclas não vão reduzir a porrada quando os mortos ficam cada vez mais perceptíveis em cada quadra.  Se hoje, com um em cada vinte brasileiros tendo morrido de COVID 19, não te parece ainda que o impacto do luto chegou no povo, eu sugiro olhar melhor e aguardar quando esse número se tornar mais brutal. 

Videla sabe o que acontece. 

Ao fim e ao cabo a questão toda é que os processos políticos das instituições e da própria política cotidiana tem velocidades diferentes da velocidade das tecnologias, e as transformaçòes tme pesos e tempos diferentes a partir das açòes.  

Para acelerá-las é necessário entender que o tempo da explosão tem a ver com o tempo da necessidade e para marcarmos um gol nesse jogo, neste campeonato de pontos corridos, precisamos de paciência e foco para aproveitar cada fragilidade do sistema e de Jair Bolsonaro. 

A queda dele precisa ser construída não acontecerá por mágica, e será, sempre. fruto de uma relação com o tempo secular e não com o tempo dos app.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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