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O PSOL, sua história, seu presente e seu futuro

Por Gilson Moura Henrique Junior

Quando historiadores forem escrever a história do PSOL eles terão algum trabalho para definir qual o início desta caminhada que em seis de junho completará dezoito anos, marcando a data da expulsão do PT de Luciana Genro, Babá e Heloísa Helena, ao resistirem à Reforma da Previdência. 

Ou serão vinte e três anos quando militantes de variadas cores iniciaram debates para a fundação de um novo partido à esquerda do PT? Ou serão dezessete anos a serem completados no dia quinze de setembro de 2021, quando a data de registro no TSE oficializa o partido rebelde que até hoje tenta marcar sua história nos passos do legado de esquerda que nos constitui?

Estas questões, importantes, são questões para a historiografia. a questão que nos chama a atenção aqui é a complexidade de coisas aparentemente simples: as escolhas para definir algo que em tese estaria dado, a data de fundação do PSOL, tem início em processos mais amplos e complexos do que a mitologia gosta de lembrar.

Da mesma forma que os “rebeldes do PT” eram mais de três, assim como em seu entorno havia mais que duas tendências internas do PT e outros tantos movimentos e indivíduos que já enxergavam bem antes os limites para os trabalhos de uma esquerda que o PT implementaria em seu governo.

Eram e são muitos os fundadores de um Partido Socialismo e Liberdade que teve nos quatro cantos do país força e fé na caminhada em busca de assinaturas, sob ataques verbais, de pedras, de polícias, de armas militares, policiais e paramilitares, desde seu início, sob o sol e a chuva inclemente que toda a militância sabe como é.

Somos muitos os “pé de boi” que abriram as picadas da caminhada de um partido que com todos os seus defeitos soube ter não apenas personalidade, como diversidade.

Somos muitos os que desde o início ouviram o apelo do partido ser “O abrigo da esquerda socialista”, para abraçar todas as rebeldias, e não apenas uma, duas ou três.

Essa rebeldia, sem dono e sem uma só marca, foi madura o suficiente para sobreviver a si mesma quando Heloísa Helena fazia questão de apoiar Marina Silva, à revelia da vontade da maioria do partido, ou quando nos tiraram uma das lideranças mais carismáticas e com maior potencial que o partido já havia produzido: Marielle Franco.

Essa rebeldia é madura até hoje para discutir, desenvolver e produzir caminhos novos nessa picada dura que é resistir à direita e à esquerda, com uma coerência rara de ser abrigo da esquerda socialista, por mais que alguns coloquem espinhos e marcas fundadores neste abrigo.

Precisamos ultrapassar nossos desafios organizativos que impedem que nossas tantas vozes organizadas ou independentes consigam debater política sem o baixo nível das manobras burocráticas ou descoladas da necessária produção de um programa consensual que nos guie pelos muitas vezes nebulosos caminhos da política cotidiana brasileira.

Precisamos desarmar feudos que desde a entrada de Ivan Valente. Edmilson Rodrigues e sua APS, de Chico Alencar, Freixo e tantos outros reagem como se fossem invasores os socialistas que ajudam desde 2005 a construir esse castelo de tantos sonhos e tantas primaveras chamado PSOL.

Precisamos louvar mais a história de luta de lideranças com Erundina e Bolso e menos a busca de lideranças artificiais que já nos causaram Cabo Daciolo e quase nos impingiram Protógenes Queiroz.

Mas até mais importante que isso é a necessidade de termos regimentos internos e programa construídos com base em consenso progressivo, políticas de comunicação transparentes e universais, que permitam que as correntes sejam menos guardiães de síndromes do pequeno poder encastelados em senhas e espaços burocráticos e mais guerreiras na defesa de nossa variedade teórica.

Porque precisamos lembrar quem são nossos inimigos, quais são nossas convergências e discutir de forma civilizada nossas divergências.

Somos muitos os que há dezoito anos fundamos o PSOL, e muitos os que desde há dezoito anos divergem entre si, e somos nós, quem choramos, juntos, o feminicídio político de Marielle Franco.

Somos tantos outros que chegaram ontem e contribuem de forma valorosa para a manutenção desta caótica sede de uma rebeldia com causa que precisa ter a grandeza de recebê-los com respeito e dignidade, apontando caminhos, informando, formando e tendo a generosidade e solidariedade que exigem tempos onde o fascismo anda de moto em um domingo ensolarado sobre quase 450 mil cadáveres.

Somos muitos que têm medo, fome, fúria, e que precisam de acolhimento e não do sofrimento de um tratamento que nos assola com a dureza e a aridez dos que desprezam a diferença.

Somos muitos os que têm a palavra certa para doutor não reclamar, somos muitos que sabemos escrever, ler, outros que nem tanto, mas todos nós sabemos ser e de forma firme escolhemos seguir aqui, nesta enlouquecida casa socialista por acreditar que deste sol nascerá um novo dia.

Porque somos muitos que às vezes choramos, mas não choramos à toa.

E se nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão, é porque não sorrimos à toa.

Sobre a autoria

Gilson Moura Henrique Júnior

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