Política

O Racismo é estrutural e sistêmico porque o sistema capitalista é racista

O Roda Viva da última segunda-feira, 22 de junho,  com o professor Silvio Almeida causou um profundo impacto em diversos setores por abordar o racismo para além de uma perspectiva de nicho, ou seja, universalizando a questão colocando que o racismo ser estrutural significa que absolutamente tudo na estrutura é permeado de racismo, a economia inclusive.

Não foram poucos os liberais que acusaram o golpe ao entenderem que o sistema que apoiam e a austeridade que definem como remédio em suspenso para todos os males da humanidade são parte direta do racismo estrutural que causa da desigualdade que atinge mais o povo preto até a morte física, o assassinato, a fome, a doença que atingem diretamente os pretos mais do que aos brancos, mas muito mais.

Causou espécie também o fato de um intelectual negro expor a um enorme contingente de brancos como a profissão de fé de sua forma de  pensamento era sustentada por uma série de premissas totalizantes com fundo metafísico que embasam um sistema que nasceu a partir da acumulação primitiva organizada em torno da escravidão e que cresceu a partir do salário psicológico dos brancos sobre a exploração predatória do trabalho de negros no pós-escravidão.

E permanece causando mais do que o escândalos de quem se choca com um professor negro ousar esfregar na nossa cara, inclusive na deste escriba tão branco quanto os liberais, que somos sim, todos, parte de um sistema que não apenas oprime pretos e pretas como se escandaliza deles terem voz, produzirem cultura, teoria, prática, arte, vida e denunciarem que tudo o que se constrói e se projeta é embebido de sangue negro e erguido sobre ombros negros.

A exposição do racismo do sistema deveria ser óbvia diante de uma pandemia onde de novo quem mais morre são pretos de uma doença nova, trazida do exterior por corpos brancos de classe alta. E mais óbvia ainda diante da permanência dos assassinatos de gente preta pelas forças policiais mundo afora, mas em especial de dois dos  países que foram os maiores próceres da escravidão humana moderna, Brasil e Estados Unidos, ter causado uma revolta mundial anti racista, ao vivo, à cores.

Não é coincidência que tudo isto esteja ocorrendo em especial nos países que elegeram dois supremacistas brancos como seus presidentes para que enfrentassem o ascenso das lutas dos oprimidos contra a opressão sistêmica, histórica e constituidora de uma realidade sócio-econômica que entende que dividir a sua estrutura social em um corte racial, étnico, de gênero, identidade de gênero e orientação sexual é o caminho perfeito para sua existência e reprodução.

Porque a diferença étnico-racial, de gênero, identidade de gênero e orientação sexual permeia todo o caminho de onde se erguem os edifícios que estabelecem os parâmetros de renda, qualidade de vida, acesso à saúde, educação, leitura, lazer, mobilidade, cultura e produção cultural divididos por uma espécie de ranking onde quanto mais preto e menos hétero masculino você for, menor é teu acesso a cada uma destas coisas.

Não é coincidência que o sistema se organize em países com administração produção econômica, estrutura  decisória, espacial e geográfica centralizadas, além de forte hierarquia nas suas organizações, e que a distribuição de poder  e de acesso tanto físico quanto político a cada elemento estrutural assim dividido seja relacionado diretamente às questões étnico-raciais, de gênero,etc.

Países se dividem com suas capitais sendo  grandes centros de desenvolvimento econômico e seus centros sejam onde residem os que mais tem poder econômico, e a distribuição da relação entre poder político e econômico prossegue do centro à periferia, das capitais às cidades do interior e no interior das cidades, também do centro à periferia. E da mesma forma em cada espaço geográfico dessa divisão é visivelmente mais ocupado pro brancos onde há mais poder político econômico e por negros e indígenas onde há menos.

Na ocupação hierárquica das sociedades é a mesma coisa. Há menos médicos, professores, engenheiros, presidentes de clube, técnicos de futebol, dentistas ,etc, negros que brancos. Pode-se fazer a mesma subdivisão em menor escala analisando a quantidade de mulheres e LGBT+ nas profissões e nas classes, mas ao fim e ao cabo encontrarmos mais negros e negras nas escalas mais pobres da sociedade e residindo nos locais mais pobres. 

Da mesma forma podemos fazer a escala de relação entre qualidade de vida e acesso a um bom ambiente ecologicamente falando e encontrarmos negros vivendo em locais com pior qualidade de vida, vítimas do racismo ambiental e com riscos de serem atingidos pelos problemas ecológicos ocasionados por eventos extremos. 

A maioria dos refugiados do clima é de homens e mulheres negras ou pelo menos não brancos, por exemplo. A maior quantidade de vítimas da COVID-19 é de negros e negras.

Qualquer explicação que envolve reduzir a capacidade de trabalho, intelectual ou moral de negros e negras para explicar essas questões envolve claramente a obviedade de ser uma explicação racista. Da mesma forma qualquer truculência moral que diz que a maior parte das vítimas da violência polícial ser porque negros cometem mais crimes deve ser qualificada criminalmente como injúria racial.

E é por isso que a entrevista do professor Sílvio Almeida foi um choque para brancos liberais fã da cartilha da austeridade racista e levou a uma reação que chegaram na ignomínia de atacar, com corte obviamente racista, as qualificaçòes do entrevistado em falar de economia.

Porque abordar as opções políticas travestidas de técnica que neoliberais ou necro liberais tomam como promotoras e cúmplices de racismo toca no coração da estrutura de um sistema que nasceu dando chicotada nas costas de quem produzia valor em suas origens: a força de trabalho escravizada.

E é nesse caminho que precisamos ser anticapitalistas e revolucionários, um caminho que entenda que o protagonismo de uma revolução socialista precisa ser de quem fundamentalmente é o mais oprimido de toda a estrutura de classes do sistema capitalistas: homens,mulheres e LGBT+ pretos e pretas. 

O papel do homem hétero branco é de ser suporte, alinhado, aliado de uma luta que é dever de todas as demais forças participantes de qualquer movimento emancipatório entender que deve ser de protagonismo de quem mais sofre as opressòes contra as quais nos insurgimos. 

E nem é preciso dizer que as lutas anti racista, anti machista e anti misoginia, anti LGBT+fobia não apenas não são contraditórias à luta de classes como são o coração da luta de classes,não?

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Gilson Moura Henrique Júnior

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