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O Sorriso do Gato de Alice do Bolsonarismo

Os debates em torno da popularidade de Bolsonaro são muitas vezes um gatilho para muita gente desistir de ter a esperança concreta de mudar as coisas, não aquela que fielmente espera, mas a outra, que constrói os caminhos das transformações, investe num planejamento dialético e buscam superar os difíceis obstáculos aos desejos e anseios da classe trabalhadora.

Claro que as manchetes que fazem leitura troncha da pesquisa do Datafolha ajudam ao pessimismo, mas é também parte do processo de educação política entender as dinâmicas do que emitem as manchetes e as editoriais dos jornais.

Na prática a popularidade de Bolsonaro subiu tanto quanto a margem de erro permite e a rejeição dele a mesma coisa. A pesquisa, por telefone, tem uma margem de erro de 5% a 7% pelo menos, e há mais do que os editores gostariam de mostrar quando dizem que 47% não culpa Bolsonaro pelas mortes na pandemia, quando 52% culpam,só dividindo ou não a culpa entre ele e outros entes da política nacional.

A questão toda é que pesquisa é retrato de uma conjuntura, de uma realidade em um determinado momento no espaço e tempo. Nada ali é definitivo.

Só que o otimismo e o pessimismo em torno da derrubada de Bolsonaro obedecem na maior parte das vezes ao imediatismo desse novo mundo onde a tecnologia a tudo acelera e não produzem os mecanismos da derrocada da extrema-direita que em tese todos combatemos, sejamos comunistas, socialistas, anarquista,s liberais ou o grande campo democrata, que muitas vezes é democrata ma non troppo.

Esse erro, esse imediatismo, é muito comum porque parte das pessoas acredita que a militância organizada em torno da exclusiva ação virtual é em si uma militância orgânica na transformação do mundo. 

É como se nos tempos idos as pessoas acreditarem que mandar cartas para as redaçòes ou gritar em praça pública que o governo era mal fossem militâncias concretas.

A militância virtual era e é importante, mas ela não substitui a construção orgânica, seja de programa, seja de núcleos e associações, seja de movimentos ou de produção de cursos de formação ou militância político partidária.

Produzir vídeos é um tipo de militância, mas produzir vídeos depois de construir coletivamente um debate em torno de temas caros à sociedade, depois de decidir coletivamente as tarefas a serem cumpridas é mais militância.

Produzir programas para candidatos é um tipo de militância, discutir meios de melhorar a vida das pessoa,s dialogar com as pessoas, tudo isso é militância, mas organizar um curso pré-vestibular comunitário ou um curso de formação é mais concreto e orgânico.

E absolutamente tudo isso é mais concreto e orgânico que dar RT ou twittar, ou escrever textão no Facebook. Esses últimos meios de fazer política são divulgação de ideias políticas, ato de embate ideológico com outros campos, mas o resultado é menor que o debate coletivo em núcleos, movimentos, setoriais,etc. 

Porque política é associação e demanda a difícil arte de conviver com o contraditório, mesmo no campo ideológico mais confortável para todos nós.

Então o tempo do debate e da construção das inúmeras formas de resistência e avanço são tempos mais lentos que o do RT ou do textão. 

Em resumo, popularidades oscilam, a política age em outros meios e caminhos que por vezes parecem ser o tempo geológico, quando são o tempo acelerado do cotidiano lidando com o movimento das relaçòes de força, e mesmo esse tempo é lento diante do tempo reativo acelerado das redes sociais.

A insistência nesse assunto, já abordado no texto anterior, é porque há uma pressa de que Bolsonaro caia amanhã, ignorando que além de Bolsonaro é preciso que o Bolsonarismo e o fascismo neomedievalista tupiniquim e que tudo isso precisa ser construído e ǹão apenas desejado.

Como assim construído? Bem, a partir da açòa coletiva nos diversos meios possíveis, seja discutindo em reuniões de condomínio, seja nos debates em partido, movimentos autônomos, ONGs, igrejas, sei lá. Caminhos há vários, mas o construir significa antes de mais nada sair do engano do sorriso do Gato de Alice do Bolsonarismo.

E o que é o sorriso do Gato de Alice do Bolsonarismo? 

Bem, é o encanto negativo de uma faceta risonha que não exibe a inexistência do resto do corpo, a fragmentação do que o faz existir e a sedução que tenta eliminar sobre si mesmo a tentação de perceber que tudo aquilo sequer foi sólido e já desmancha no ar.

Bolsonaro age como o mágico que esconde a ausência apontando pro lugar onde nada há e faz com que esse bando fragmentado de fanáticos de cores por vezes contraditórias entre si pareça um movimento unitário, quando não é.

O risco dessa sedução às avessas é que ignoramos que o coletivo pró-Bolsonarista é tanto mais perigoso que Bolsonaro quanto mais fácil de dividir para derrotar.

Ao contrário da esquerda que tem consensos mínimos, da legalização do aborto até o debate em torno da redução da desigualdade, embora muitas vezes há quem divirja do foco na luta de classes e na superação do capitalismo, a extrema-direita oscila entre focos em opressões difusas, por vezes concorrentes e que tangencia a relação com o liberalismo como álibi para promover devassas e genocídios.

A fragmentação da extrema-direita é nítida inclusive nos debates em torno da própria fé, onde católicos conservadores e evangélicos se odeiam enquanto mantém um consenso de ódio misógino contra o aborto. Nos derrotar aqui é um acordo tático que mal; esconde o ódio mútuo.

Defensores da ditadura militar tapam o nariz com alianças com neonazistas, Integralistas tapam o nariz com a aliança com ambos, Pinochetistas se acham democratas liberais técnicos que estão temporariamente aliados com a escória da humanidade em nome de uma razão superior.

Todos estes usam um ascenso do ódio ao feminismo, à retomada do anticomunismo acelerado, o ranço e o rancor do machismo mais abissal, o racismo arraigado até na classe trabalhadora para juntar um capital político perigoso, difícil de derrotar, por ser um Leviatã das profundezas do abismo moral da população, para esconder a dificuldade final de manter os ajustes finos e as negociações em torno da tempestade perfeita que os elegeu.

Esses arranjos esbarram mais ainda na real politik da própria direita que hoje é atraída por Bolsonaro para tentar salvar a pele do governo. 

Se o essencialismo é um problema para a esquerda, para uma direita onde o essencialismo abraça a ideia de céu e inferno a coisa pega mais forte ainda. 

Porque dá para imaginar uma aliança tática entre a extrema-esquerda ultra marxista leninista revolucionária e a social democracia para combater o fascismo, difícil é imaginar uma aliança duradoura entre quem acredita estar em uma missão em nome de Deus com quem abraça o esoterismo e até uma relação metafísica com mitologias nórdicas e convive com acusações de satanismo. 

Nem precisamos falar como liberais pinochetistas parecem aos olhos do medievalismo neofascista e da direita fundamentalista cristã com comunistas frágeis e dominados pela “ideologia de gênero”, abortistas em potencial.

É só olhar como o Bolsonarismo ataca o fiel PSDB, o amigo DEM e até o sabujo Novo.

É essa a fragmentação que o sorriso do gato de Alice do Bolsonarismo esconde.

E também é essa fragmentação, ancorada na reação conservadora aos avanços dos movimentos emancipatórios de mulheres, negros, indígenas, LGBTs,etc, muitos deles alinhados com partidos da esquerda socialista e comunista, que torna também ser mais fácil, palpável até, a derrota de Bolsonaro que do movimento que ele permitiu ser alçado à luz pelo seu vôo de galinha na tempestade perfeita.

Derrotar Bolsonaro é uma questão de tempo e cuja construção precisa ser fortalecida, mas a derrota do que Bolsonaro trouxe à tona precisa ser mais compreendido e combatido por uma luta de longo prazo.

Os novos tempos que nos mostraram o Gato de Alice e seu sorriso conservador abriram a porta de uma nova forma de política, mais presente nas tradições europeias e suas políticas de confronto mais aberto, que é o do reacionarismo e da cultura do ódio, ocultas pela falsa tradução do Brasileiro Cordial como um sujeito civilizado e educado e não motivado pelo calor autoritário da reação emotiva alinhada com as tradições senhoriais e as relações de compadrio.

Essa nova camada de ação política, brutalmente reacionária, misógina e racista, não vai sumir sem Bolsonaro, e precisa ter um combate mais duradouro.

As pesquisas mediram a retomada de parte da população do desejo de participar dessa cultura de ódio, mas exibiu também como a fragmentação do que a empodera oscila e pode ser o caminho para, a partir da oscilação, derrotarmos o campeão do ódio que ocupa o Planalto.

A complexidade dos movimentos e da construção de uma vitória sobre a barbárie depende de sairmos da hipnose do sorriso do Gato de Alice e vejamos que, pasmem, ele oculta seu corpo, dividido no espaço, na prática divergindo entre si e não sendo exatamente algo inteiro.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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