Política

Robô não vota, a esquerda precisa ampliar seu engajamento orgânico e a segurança digital de suas campanhas

Há na militância mais atualizada na tecnologia a narrativa que a esquerda ainda está “no tempo da carta e do SMS” ao se referir à dinâmica da extrema-direita e seu aparente domínio das redes sociais e novas tecnologias.

O erro que aparece nessa narrativa é transformar um domínio sobre a linguagem que fura a fila da ética em um domínio pelo domínio da técnica.

Tratar como falha da esquerda um suposto domínio das redes sociais pela extrema-direita é omitir a questão do método.

Primeiro porque há uma diferença quantitativa e qualitativa nas militâncias forjadas pelo uso de aparatos tecnológicos ou escritórios de impulsionamento de redes sociais, os vulgos robôs, e os atos orgânicos, construídos a partir da mobilização concreta, de pessoas existentes que usam redes sociais.

Segundo que há uma dimensão ética que trava a análise ao ignorar que a tática dos porões, e que garante visibilidade , atropela os limites da ação minimamente respeitável e que constrói caminhos diferentes das opçòes políticas.

Há uma falsa lógica de que mesmo se a esquerda dominasse o que já domina,as técnicas e linguagens das redes sociais (Porque a esquerda é muita gente) ela superaria as máquinas de uso de fake news com anteparo de big data. Não superaria.

Inclusive é fundamental discutir o limite ético do próprio uso de big data, dos dados compartilhados pro plataformas e redes como o Facebook, a ideia de uma campanha política movida a algoritimo, que se não for observada faz com que parte da defesa de uma “renovação tática” da esquerda tangencia a canalhice.

E há mais no caminho: a necessidade de pensar como o porão das ações em redes sociais é um caminho que a esquerda não pode sequer pensar em percorrer e os ataques racistas, misóginos, LGBTfóbicos às lives da esquerda, feitos obviamente com o mote que o Gabinete do ódio de Jair Bolsonaro conhece muito bem.

Porque com a exceção comum de que há falhas da esquerda ao divulgar posts da extrema-direita criticando-o e a própria ausência de necessidade e a presença de limites éticos para que sigamos os mesmos caminhos que fascista utilizam no uso das tecnologias.

Até porque há questões que inferem que o uso crítico das postagens da extrema-direita causa um impacto negativo no engajamento à ela,s então pode-se discutir que facilita o engajamento, mas também o incute a nódoa da interaçòa negativa e isso faz enorme diferença. 

E há a questão de que com a perda paulatina de impacto em todas as redes, a extrema-direita esteja optando por táticas agressivas de sabotagem ao mesmo tempo em que atua em entrincheiramento, ou seja, saída das redes como um todo e ocultamento em redes fechadas com perfil de guerrilha. 

Há uma ideia de que a esquerda perde por WO da direita nas redes sociais, criticada por estudiosos da área exatamente porque não analisam o perfil dessa vitória, que não consideram a práxis como elemento da suposta vitória. 

Oras, se o domínio das redes é feito com golpes abaixo da linha da cintura, o caminho é imitar o vencedor ou subverter essa vitória expondo o golpe?

O próprio peso das vitórias de ideias progressistas e mais vinculadas à esquerda, como o antirracismo e o antifascismo, nas mesmas redes sociais, deixam claro que o buraco dessa guerra é mais embaixo e que há um limite da máquina de propaganda e um limite expresso na própria oscilação da popularidade de Bolsonaro, que mesmo sendo presidente não consegue um domínio completo real, ous eja, o WO ali é fictício.

E tanto o WO é fictício que o passo seguinte dado pela extrema-direita é tentar dopar o adversário, sabotando suas açòes coletivas em lives pré-campanha e ameaçando de morte suas lideranças.

A preocupação da esquerda tem que ser menos o impacto de seu domínio das redes e mais a segurança desse domínio.

Em uma campanha sme rua, em que a pandemia nos impele ao isolamento social obrigatório, é fundamental ampliar nossa participação nas redes sim,com mensagens de transformação e construção, com o uso do aspecto solidário de nossa luta, com o sorriso que nasce do mundo que queremos construir e que confronta o mundo sombrio dos que a tudo odeiam e se amarram no racismo, misoginia, machismo, LGBTfobia e outros caminhos do ódio.

E é preciso garantir nossa segurança digital e exigir do TSE uma garantia dessa segurança, permitindo que os bunkers digitais da extrema-direita sejam enfraquecidos, que as denúncias de hackeamento sejam apuradas e seus autores punidos.

A perspectiva do uso das redes na campanha deve ser, pela esquerda, o de uso da linguagem que atraia o eleitor e não o de imitar o obscuro caminho dos gabinetes do ódio.

Porque é discutível um WO em que o engajamento orgânico confrontar o artificial. Até porque robô não vota.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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