Política

“Zorba, o grego”, “Além da imaginação”, política e pandemia

Assisti o filme “Zorba, o grego” com meu pai em um dia perdido nos anos 1990 e me marcou demais a perspectiva do rígido britânico ser humanizado pela bruta alegria do grego em sua dança final.

Não me lembro mais do filme e inclusive preciso rever, mas ficou na minha imaginação a dança e a música final,  que também é exibida em espetáculos de gregos abraçados uns aos outros em uma música e dança que inspiram liberdade.

A cena em si, o peso daquele filme em um cenário duro dos anos 1960, em que a Grécia três anos depois da produção do filme de 1964 seria alvo de um golpe militar, revistos nos anos 1990, pouco depois do fim de nossa ditadura, se tornou um símbolo do que era uma inspiração de baixo para cima sobre o que é liberdade e um signo político forte, não só para mim, mas para um mundo que precisa sempre ser lembrado do que é valor e do que é preço.

Zorba poderia ser um personagem de Além da Imaginação, uma série que Rod Serling criou nos anos 1960, iniciando em 1959, e que teve mais três edições nos anos 1980, 2000 e agora reiniciou em 2019.

A mensagem de Zorba seria fácil de ser incluída nos roteiros que discutiam racismo e como ele conseguia vencer até a mágica, pois um homem negro precisa aprender desde a infância que a mágica não pode salvá-lo do racismo. 

Zorba poderia ser um personagem que expunha as transformações físicas que quem tem flexibilidade moral faz para poder lucrar sobre vítimas vulneráveis ou sobre como a morte pode ser uma saída simpática para quem tudo perdeu e vive na iminência da miséria, ou em um tipo de vida em que um homem salva um avião da iminente queda, mas é tratado como louco, porque se prefere acreditar na doença mental do que no perigo de uma ruptura do normal, 

Nos dois casos a ficção serviu para debates políticos de fundo, para além do simbólico, atuando fortemente na exibição do que foge ao dito normal, usando uma zona crepuscular como álibi para discussões profundas.

O poder absoluto corrompendo absolutamente, o medo da democracia fazendo lideranças cometerem loucuras, as opressões diárias fazendo um homem preferir a total solidão em um planeta devastado à convivência social ou mesmo o desejo de retorno a um mundo bucólico de séculos passados a viver em um mundo onde o homem é o lobo do homem. Tudo isso foi palco de episódios de Além da imaginação em que a política adentrava o cotidiano de telespectadores dos anos 1960.

O fascismo suburbano que transforma jovens em ou soldados ou em condenados à morte ou o racismo que faz um homem precisar se transformar em negro e sofrer racismo para ajudar a um professor negro perseguido por skinheads são temas que foram abordados na retomada em 2000 e o racismo policial foi abordado em um episódio da retomada em 2019, algo crucial para entendermos o Black Lives Matter nos EUA ou o movimento que clama que Vidas Pretas importam no Brasil.

O fato é que a ficção é um produto de seu contexto e constrói abordagens que são transversais, explicitamente ou não, às questões políticas de sua época. 

Na zona do Crepúsculo utopia e distopia dançam um balé que reflete não apenas o mundo em que foram produzidos os episódios, mas uma temática perene que deixa claro os limites do sonho americano e do próprio capitalismo.

A ficção aqui atua como um campo que explicita o político do cotidiano e é fundamental para que consigamos construir com o mundo um diálogo que vá além das fórmulas teóricas que abordamos e lemos em nossas vidas. 

Em tempos de pandemia, os diálogos ficcionais distópicos que expõem que a sociedade em situações limite atua sob o paradigma hobbesiano de lobo comendo lobo são uma parte fundamental da construção de uma análise crítica sobre como o capitalismo age quando as instituiçòes atuam sob mordaça ou chegam ao limite da representatividade e como em um mundo onde a lei do mais forte é implantada, sempre haverá um grupo mais forte que o seu para exercitar a opressão diária.

O apocalipse zumbi ficcional pode ser lido como metáfora de  um mundo onde cada vez menos se racionaliza o cotidiano e mais se segue de forma brutalmente simplória, slogans pouco inteligentes e uma não observação do mundo real como meta e onde seguir mitos ou lendas urbanas a respeito de mãos invisíveis do mercado é não apenas atraente como algo que ocorre fundamentalmente hoje.

A ideia de que mesmo com perda de capacidade de compra enormes contingentes populacionais se deslocam para a rua, não para trabalhar ou consumir, mas para circular a esmo em pleno pico pandêmico não tem como deixar de ser lido como uma espécie de apocalipse zumbi cotidiano.

As distopias de Os Contos da Aia ou de Mad Max hoje parecem previsões e ambos são ficcṍes que abordam percepçòes futuras a partir de um deslocamento da zona de criação para o limite entre ficção e realidade, a zona crepuscular que permite que o fantástico seja uma extrapolação de situações palpáveis.

Os tempos de pandemia nos colocam em meio a uma realização de situaçòes extrapoladas e nos permitem refletir se continuaremos permitindo que a irracionalidade capitalista conduzam o mundo em sua predatória realização do fim do mundo ou se reconstruímos o mundo em novas bases, onde não precisaremos de distopia,s mas da construção solidária de um mundo real que respeite o balém humano, afetuoso de gregos como Zorba.

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Gilson Moura Henrique Júnior

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