Política

Educação: relato de experiência e algumas considerações

Neste exato momento milhões de pessoas, majoritariamente jovens, estão na expectativa pela
definição do processo de preenchimento das vagas disponíveis nas universidades públicas. Familiares e
amigos acompanham a ansiedade destas pessoas, carregando consigo a esperança do acesso à
universidade e a uma formação que seria a garantia de uma vida melhor. Infelizmente para muitos
envolvidos não é assim.

Quando cursei Agronomia o ingresso ocorria por vestibular. Há alguns anos eu estava curioso
para saber como era o processo ENEM-SISU e neste ano fiz a prova. Por acaso, nas semanas entre a
prova do ENEM e o preenchimento das vagas, li o livro 20 mil léguas submarinas, de Júlio Verne. Quem
já leu sabe que durante a jornada dos personagens temos contato com verdadeiras lições de química, física
e biologia. Ao me deparar com estas lições foi impossível não lembrar da prova do ENEM. Viajei por
algumas das páginas do livro assim como em algumas páginas da prova. Alguns dos assuntos presentes
eram, para mim, novidades. O esquecimento, consequência dos 14 anos que me separam da conclusão do
ensino médio e este momento, explica em parte esta ignorância. Ao mesmo tempo, afirmo convictamente,
que muitos destes temas não estiveram presentes nas aulas que assisti nas escolas públicas pelas quais
passei toda a minha vida.

A disparidade de preparação para um exame como o ENEM é gritante e reflexo das
desigualdades sociais do país. Essa convicção reforça uma pergunta que tenho feito há algum tempo.
Como pode alguém ser contra a reserva de vagas – cota – para os estudantes de escolas públicas? A
mesma pergunta eu faço para a reserva de vagas para indígenas, negros e negras. Como se pode não
compreender a brutal diferença de oportunidades entre brancos, negros e indígenas? A reserva de vagas é
uma medida, dentre inúmeras outras necessárias para que tenhamos o mínimo de justiça em um processo
seletivo como este.
Dada a importância da educação, não podemos nos contentar com o mínimo. As pesquisas nos
dizem que um país como o Brasil, dado a população em idade escolar e a condição de suas escolas
públicas, deveria investir 10 % do PIB na área. Muitos partidos passaram pelo governo federal e
lamentavelmente não chegamos perto deste índice, girando este investimento na casa dos 5 % do PIB.
Além disso, segundo dados do IBGE (2014) apenas 55,2 % dos jovens entre 15 e 17 anos estão cursando
o ensino médio, o que nos leva a necessariamente refletir que a nossa escola pública é carente de
melhorias e, além disso, há uma massa de jovens que sequer tem acesso a ela.
O governo Temer, além de aprovar uma PEC que limita gastos em educação, apresenta o projeto
de uma reforma do ensino médio, que tem como principal propaganda a especialização. Ao que tudo
indica o governo pretende intensificar a formação de profissionais com conhecimentos específicos.
Engenheiros que não interpretam uma notícia de jornal e sociólogos que são logrados por não
conseguirem fazer uma conta de juros simples, por exemplo. Já o governo Sartori está parcelando os
salários dos educadores da rede estadual, onde se concentram a maioria das escolas de ensino médio.
Não há como esperar dos governos de plantão as melhorias necessárias na educação. Precisamos
nos mobilizar. Penso que o esforço individual de muitos de nós para acessar as poucas vagas das
universidades públicas deva se transformar em um esforço coletivo pelas melhorias na educação pública.

Sobre a autoria

Jurandir Silva

Jurandir Silva

1° Suplente de Deputado Estadual; Engenheiro Agronomo; Candidato a Prefeitura de Pelotas pelo PSOL (2012, 2016); Tesoureiro do PSOL Pelotas; membro do Diretório Estadual do PSOL RS.

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